Agamenon Almeida

A vida é a arte do possível na busca do impossível.

Textos


O DRAMA DO FRANGUINHO

Eis que depois de quatro meses morando em Ribeirão Preto passo pela situação mais hilária que tive o deleite de vivenciar. Seria demasiadamente egoísta não compartilhar com os meus maiores fãs esta ridícula narração. Mas afinal de contas à existência de cada um de nós é ridícula, e isso a tornas interessantes, cômicas e perfeitas de se viver.

Os que me conhecem certamente divertir-se-ão tendo vagas imaginações desta narração. Os que não me conhecem azar, somente os que me conhecem sabem o quão real pode ser esta história, por já terem vivenciado cenas longinquamente semelhantes a que será descrita. 

 

Uma cinza manhã de sol em Ribeirão Preto, escaldante sol que só os catingueiros para suportar. Ta tão quente que até o céu ta queimadinho, não ta azul, ta uma mistura de laranja com cinza... tradução: FEIO. Nada que ouse a se comparar com o céu de uma manhã de verão da Bahia, Ah... O céu azul turquesa da Bahia! Nessas horas me deparo com a interessante constatação de que só a falta nos faz valorizar as coisas belas. De resto tudo vira cotidiano e somos levados pelas atribulações diárias a não parar e observar o quão sortudos podemos ser em algumas ocasiões.

Nesse dia tão exótico resolvo que vou ficar na casa, estranhamente denominada de “Bordeu” (a origem do nome não faz jus de forma alguma ao seu significado, CALMA LÁ!!!). Fico em casa e adianto alguns os resumos que tenho que mandar para os milhares de congresso que vão ter e que já começaram as inscrições (não sei ainda qual banco irei assaltar para poder ir a todos eles, mas...) artigos que tenho que ler, cronogramas e pautas da reunião de segunda-feira quando entre uma defesa de doutorado e uma viagem à Austrália, eu vou conseguir um horário de roda pé na agenda do Professor.

Manhã calma. Leio meus artigos, anotações, uma fofoquinha no MSN (ah! Longe de casa tenho que me manter antenada dos acontecimentos), roupa de molho (Aff, bem vindo ao mundo de morar fora). Tudo na mais completa normalidade quando dou-me conta de que como todo o ser vivente sobre a face da terra tenho que me alimentar...

O QUE EU VOU ALMOÇAR???

-Restaurante? Não...contenção de despesas TOTAL (To sem bolsa)

-Bandeijão de R$ 1,00??? Ixi tava no cardápio do dia uma dobradinha muito sinistra, meu estômago de avestruz não está para tanta peripécia.

- Em casa... saladinha, Nuggets, pouca perda de tempo cozinhando... E nada de excesso de caloria (Pneus Michellan está Froids)... Beleza vou almoçar em casa!

Tiro os meus trapinhos domésticos “A la Dona Vilma” e dirijo-me ao supermercado comprar a tal saladinha dos preguiçosos (By mamãe). Vou parecendo uma Bamby alegre e feliz. No caminho compro moranguinhos (duas caixinhas por R$ 1,00...Uhuu dilícia!). Até parece história da chapeuzinho vermelho indo para a casa da vovó. Chego ao supermercado e vejo a tal “Seleta” que minha querida amiga Daí me indicou (a única pessoa que me entende na face da Terra, a única que sabe a dureza que é a vida de estudante fora de casa!). Achei interessante e resolvo levar uma para complementar minha saladinha dos preguiçosos. Dirijo-me a seção de verduras e congelados quando uma tragédia acontece:

Agora parem... Paaaaara TUDO!

Não tem a saladinha dos preguiçosos???

AH! Que desastre! Meu mundo caiu... Lágrimas vieram aos meus olhos.

O QUE EU FARIA SEM A MINHA SALADINHA???

 Nuggets já é uma coisa ruim (principalmente depois que volta da casa da mamãe e está com o paladar apurado com o temperinho gostoso dela. Ah, bendito tempero, me acostumou mau) de e sem saladinha?

AAAAAAAAAAH Meu mundo CAIU de verdade!!!

Digo para mim mesma: “Calma Daiana, Calma, Calma. Uma Lady não se desespera por uma saladinha.”. E assim volto parcialmente a minha pseuso sanidade. Penso em alternativas. Penso, Penso, Penso até que depois de muita fumaça recorro a um cardápio alternativo. Nuggets com Seleta e arroz. Legal, vou a seção onde ficam os Nuggets,

“ÃH?” Caríssimo! Aff...que dureza!

Então penso, penso, penso e depois de mais um pouco de fumaça, ouço um chamado. Vinha da geladeira contendo as carnes. Era um cocó-cocó... Um peito de galinha nojento. Arg!

Então pensei... Não, não, não, eu preparando galinha? Arg! Que tragédia.

Mas pensei mais... Não é possível que uma Bacharel em Ciências Biológicas pela Faculdade de Tecnologia e Ciência, Mestranda em Entomologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo... vulgo USP, não é capaz de enfrentar um peito de frango! Uma apicultora corajosa que enfrenta as mais bravas colméias de abelhas africanizadas. Oras é uma mulher ou lebre saltitante incapaz de encarar uma galinha morta??? Não é possível que em minha experiência fora de casa terei de virar uma vegetariana apenas pelo fato inexorável de ter nojo de tratar uma galinha... ou pior: um Peito de galinha! Ridículo... Absolutamente ridículo.

 Após uma instantânea crise existencial... Resolvi testar minhas habilidades. Uma idéia não muito interessante. Mas também, depois de tanta fumaça não era de se esperar uma idéia fascinante.

A partir desta resolução, não aconselho a cardíacos continuarem lendo... Por que as descrições seguintes podem levá-los a urinar de tanto rir.

 Chego em casa, coloco meus moranguinhos de molho e vou encarar “O PEITO DE FRANGO”. Antes disso, retorno aos meus trajes domésticos complementados a uma “simpática” toquinha de Nero na cabeça... enfim a visão do inferno acrescida de doses de humor.

De primeira eu olho o franguinho... ele me encara (olhar duro o dele... mas depois faz caretas) ... Repito as caras e bocas tradicionais que faço em situações como esta. Como já citado, só quem me conhece para imaginar tal cena. Pego a faca e dou o ponta pé inicial à batalha. Começo retirando o couro do bichinho... ARG que coisa mais nojenta! Mas não desisto e prossigo com a dissecação do animal. Tento aplicar alguns conhecimentos acadêmicos das aulas de anatomia animal, mas vejo que existe uma diferença brutal entre dissecar uma pomba conservada em formol e o tal franguinho de supermercado. Não deu ... arregacei com o frango, esquartejei “com dó e piedade”! Quer ingredientes melhores na hora de se preparar um bifinho de frango para o almoço?

 De repente... Não mais que de repente tenho lúdica visão de um franguinho vivo do meu lado. Acho estranho e volto a batalha. Mas ele começa a sonorizar uns cocó-cocó para cá e para lá. Coitadinho parece tão trisitesinho. Ai...Será que é a alma do bichinho que eu to esquartejando??? “Jisuis, Maria, José” ... Será??? Eu ia na geladeira pegar  tempero e o franguinho atrás de mim. A cada corte, a cada talho que eu fazia no bichinho, o franguinho ao meu lado, meu companheiro de cozinha a essa altura, fazia cocó-cocó.

Pronto... Uma crise de riso toma conta do meu ser. Sozinha, numa cozinha, rindo incontrolavelmente e com uma alma de franguinho berrando cocó-cocó do meu lado. É para rir ou chorar? Não sei o que era para fazer... Mas eu ria, ria, ria... Sozinha, quer dizer, acompanhada da alma do franguinho. Seu Gustavo (meu Vizinho) certamente achava a esta altura que tinha uma baiana surtada no Bordeu ao lado de sua residência.

Terminada a dissecação do bichinho, com o meu companheiro de cozinha (a alma de franguinho) já rouco com tanto cocó-cocó, deparo-me com os bifes de frango mais assimétricos e ridículos da face da terra. Aff, que tragédia feminina minha mãe colocou no mundo. Seguido desta constatação, mais uma longa, muito longa crise de riso. A esta altura meu amiguinho tinha desistido de fazer cocó-cocó e juntou-se a mim na crise. Pelo menos não ria sozinha. Gostei dele, simpático, depois de tentar me sensibilizar, inutilmente, já éramos amigos íntimos... Ríamos e fazíamos cocó juntos.

Caras e bocas num corte... crise de riso nas talhadas nos músculo do frango, dirijo-me a próxima etapa: Temperar os assimétricos bifinhos. Coloquei tudo que tinha de tempero. Pimenta do reino, um troço amarelo que não sei o nome, mas era cheiroso o danado, azeite, vinagre entre outros condimentos que eu não fazia noção do que era (certeza de que não era veneno, to viva relatando esta história grotesca). Meu bifinho seria tudo, menos um bifinho sem gosto.

Improviso uma chapa de grelha para finalizar a minha refeição. A esta altura meu amiguinho já não se encontra tão bem humorado, mas fazia-me companhia da mesma forma. Chegou uma hora que até achei que fosse ele quem tivesse virando os meus bifinhos na chapa. Bem feito, dá asas à imaginação não foi uma boa idéia, meus dois primeiros bifinhos saíram queimados. Frango lerdo... Presta atenção à zorra da chapa!

Coloquei mais dois e fui eu mesma cuidar dos meus bifinhos na chapa, não dá para confiar em estranhos! Aff...

Entre uma virada e outra ia arrumando meu colorido prato com um tomatinho que achei na geladeira (acreditem, ele tava lá desde que eu viajei... equivalente há três semanas!) e a tal Seleta com ervilha, milho e cenoura. Vira de cá e vira de lá e no final, apesar de assimétricos, estavam com uma cara de bifinhos de frango, coradinhos, meio amarelinhos demais por causa de um condimento esquisito que eu incorporei a minha receita imaginária. Descasquei uma tangerina e lavei quatro moranguinhos (minha sobremesa) e ao fim, duas horas depois de começar o preparo, minha experiência gastronômica tava com cara de refeição.

Fui para o projeto de sofá localizado na sala desfrutar do meu ensaio gastronômico. Eis que olho para meu lado e quem estava?

Quem? Quem?

 O meu amiguinho... O franguinho. Mas ele já não estava tão alegre e soltando cocó-cocó como no princípio. Estava super abatido, cabisbaixo, olhar voltado para, o que presumo eu que fosse, o seu peitinho dilacerado. Ao primeiro espetão que dou com o garfo ele berra: COCÓ-COCÓ, e começa a chorar. Ai aquilo foi me angustiando... Entristecendo-me de tal forma que lagrimas começam a surgir nos meus olhos e uma crise de choro toma conta de mim. Choro, choro, choro... Neste momento meu amiguinho, feliz de ter alcançado o seu objetivo, me sensibilizar, olha nos meus olhos e cai em risos.

O QUE???

O descarado do franguinho está rindo da minha cara???

Paro e reflito:

Mas por que cargas d’água eu to chorando?

E por que esse frango canalha ta rindo de mim?

Ainda sensibilizada mas já despida de pudores profissionais termino a minha refeição, acompanhada do meu amiguinho ainda, que ria ...

 Perguntava-me freqüentemente: Como uma criatura pode ser tão besta?

Não sei... Só sei que ao ultimo pedaço do meu bifinho assimétrico, meu amiguinho sumiu.

Poxa! Já tava criando um vínculo afetivo com o bichinho! Mas ele se foi, o mau criado. Nem se despediu de mim!

Ainda rindo, porém sem mais a companhia da alma de franguinho, chupei a minha tangerina seguida dos meus moranguinhos refletindo sobre um pensamento que me ocorreu ao longo da minha experiência:

 - Numa selva, eu estou definitivamente mais para uma lebresinha saltitante e vegetariana que para um leão voraz e sanguinariamente carnívoro. Se eu tiver alucinações a cada franguinho que eu resolver liquidar, meu plano de saúde terá prejuízos com minhas despesas psicológicas, que certamente precisarei.

Mas da miséria uma coisa boa, estarei surtada, mas cheia de “amiguinhos”.


Por Daiana Almeida De Souza

OBS: Este texto é um retrato fiel das vivências fora de casa da minha filha Daiana... Achei tão interessante que não me contive, e resolvi publicar, com a devida autorização da autora.
Agamenon Almeida
Enviado por Agamenon Almeida em 27/01/2008
Alterado em 29/01/2008
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